terça-feira, 5 de janeiro de 2010



O Leão da Montanha
por Marco Leite

Durante a minha infância, havia um personagem - o Leão da Montanha - que me impressionava muito pela maneira como lidava com situações que lhe traziam, de algum modo, um tipo qualquer de desconforto, conflito, risco ou impasse: ele simplesmente evitava a todo custo a situação aflitiva, se retirando do ambiente, dizendo sempre sua frase chavão: “saída estratégica pela direita (ou esquerda)”. Talvez alguns de vocês se lembrem deste personagem que, ao menos para mim, era muito marcante... Durante minha caminhada de recuperação conheci um Leão da Montanha na Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer, um viralatas de porte muito grande e laranja como o rei dos felinos. Pois esse leão chamado Negão foi um dos ícones de minha recuperação. Sempre que me sentia mal e queria ficar só, lá estava ele em silêncio ao meu lado, como se compreendesse que eu precisava ouvir o som do silêncio da montanha encantada onde passei quase 10 meses. Ao conhecer o Negão, o verdadeiro Leão da Montanha, compreendi tudo. Está aí o problema, o xis da questão: estamos todos, muitas vezes sem sequer nos darmos conta, agindo como aquele personagem e tomando uma saída estratégica pela direita (ou esquerda, se preferirem). Evitamos o enfrentamento das verdadeiras questões, que geralmente são situações que geram desconforto e uma sensação de impotência ou incapacidade de solucioná-las. Explico-me melhor através dos exemplos que fui colhendo nos dias que passei assistindo e participando dos dois eventos de Natal e Ano Novo, recentemente. Os problemas e os enfrentamentos dos residentes não são diferentes dos meus, e continuam. Lá está aquele cachorro sempre acompanhando nossas contradições e nossos medos de nos confrontarmos. Quando pensamos em desistir o Negão está lá quieto e compreensivo, pedindo um afago. Talvez através desse afago ele consiga transmitir a coragem para irmos permanecendo na montanha e aí sim podermos despertar um novo homem. O Negão é um cachorro especial, está velho e talvez seja o último de sua raça, como o Último dos Moicanos. Não sei quantos adictos passaram pela Renascer durante os 13 anos de vida desse Leão da Montanha. Ele viu muitos partirem, e muitos voltarem recaídos ou só para visitar esse lugar maravilhoso. Sei dizer que ele sempre recebe a todos como um companheiro de sua longa caminhada e para uma boa partilha, em silêncio, no alto de sua montanha.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Grande amigo Tonito


Amigos que perdemos
pelo caminho...


por Marco Leite

... em minha vida desregrada e no mundo das drogas as coisas não foram totalmente inaproveitáveis. Durante esse período de fugas encontrei também grandes amigos, pessoas boas e
que, como eu, se perderam em algum momento de suas vidas.
O uso das drogas e álcool começa como uma brincadeira, alguns usam por um tempo e abandonam, outros passam a vida inteira usando com moderação em festas, fins de semana e ocasionalmente. Mas, como eu, muitas pessoas desenvolveram a dependência e não conseguiram recuperação ou ajuda de alguma entidade, tipo a que me foi oferecida pela Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer.


Durante o período de minha drogadição ativa e em minha recuperação perdi muitos amigos especiais e dig
o especiais mesmo. O primeiro deles morreu muito jovem aos 19 anos e era quase que um irmão mais novo, o ano foi 1989. Naquele tempo eu ainda não usava drogas e era um bebedor de fins de semana, mas estava sempre com esse menino e o protegia. Foi um garoto que ensinei a profissão de diagramador, mas ele, talentoso, logo já estava superando o mestre. Foi meu colega de serviço durante anos, mas foi tirado de minha vida de uma maneira chocante, foi a primeira grande perda de um amigo que tive. Volta e meia lembramos dele em nossas rodas de conversas, era um menino sem maldade e uma alma pura, mas que foi derrotado pela dependência.

Passaram-se os anos e f
ui perdendo vários de meus amigos e parceiros de consumo. Volta e meia, subo a lomba da Santos Ferreira para velar alguém que perdeu ou não teve tempo de acordar para uma vida espiritual e, assim, poder preencher o vazio que as drogas deixam na gente.

O último desses amigos que perdi, eu já estava com minha doença crônica estagnada (pois ela não tem cura), e
ele foi buscar recuperação na mesma comunidade em que eu passei 10 meses. Chegou na Renascer e eu prontamente me propus a ajudá-lo. Não consegui, ele já estava em um estágio terminal de alcoolismo e havia desistido de lutar, saiu da Comunidade e só voltei a encontrá-lo em um caixão.

Esse é o efeito que as drogas e o álc
ool causam em um dependente, e sem ajuda o cara não tem coragem de lutar sozinho. Por experiência própria, eu sei que ainda vou computar muitas perdas pelo caminho de recuperação. O índice de pessoas que conseguem ficar em pé é de dois em cada 10, e isso se elas buscarem ajuda, quer seja de uma igreja, comunidades ou outra forma.
Existe saída, mas não é fácil, é precis
o coragem para mudar os hábitos de uma vida sem rumo. É preciso novas atitudes, e corretas, para obter os resultados que podem levar a uma mudança de comportamento.

Amigos que encontramos

pelo caminho...

... tive um belo encontro na quarta de manhã com meu mentor profissional e grande amigo Antônio Canabarr
o Tróis Filho, o Tonito. Foi ele que me deu o primeiro emprego em Canoas, no jornal O Timoneiro, em 1978. Como incomodei o Tonito, fui seu empregado durante dez anos, e aprendi tudo que sei em jornal com ele. Para o Tonito eu tenho “trinta anos de praia”. Que nada, grande amigo, eu sou da sanga, e minha praia é um mundo de feliz recuperação e de gratidão pela vida ter me dado oportunidades de conhecer gente como você.
Adquiri a obra mais recente do Tonito, o livreto “Prosa Ligeira (quase verdade)”, e em sua dedicatória ele me es
creveu: “Ao Marquinho, Lampião, que mantém acesa à fraternidade”.
Obrigado por tudo Tonito!

Coluna publicada no Jornal O Timoneiro
Canoas - RS






Cinco Marias
por Marco Leite

Finalmente consegui sentar para fazer a coluna para o Tribuna. Estou trabalhando sem parar desde do
mingo e hoje já é terça-feira, mas falo em trabalho dia e noite, com poucas horas de sono e falta de tempo até para as refeições. Fiz um boletim para os servidores públicos de minha cidade e estou produzindo um livro para um menino chamado Felipe, que tem dez anos, e vai lançá-lo na Feira do Livro de Canoas que será aberta no dia 20 de junho. O boletim eu diagramei e imprimi, entregando-o hoje. O livro está em produção e deve ficar pronto nos próximos dias.

Tenho trabalhado demais e
poderia estar reclamando de tudo e de todos, das dificuldades, dos compromissos, das relações pessoais e de tantas outras coisas. Mas não vou fazer isso. Estou escrevendo para agradecer, primeiramente por estar vivo e com saúde para poder fazer tudo isso que citei acima. Agradecer pela convivência que tive com o Felipe e sua família hoje pela manhã, quando estive com eles produzindo umas fotos para o livro. Pude conversar com uma criança cheia de sonhos, a cada local da cidade que percorríamos para captar as imagens Felipe ía me contando um pouco de suas histórias, do colégio, onde jogava bola, do avô, da avó... Também contou as brincadeiras de crianças que ele faz. Fui pesquisando quais eram as suas preferidas e descobri que Felipe, talvez pelos ensinamentos dos pais, ainda preserva as velhas brincadeiras que fizeram parte também de minha infância aí em Uruguaiana.

Felipe joga bola no campinho do parque, coleciona figurinhas, joga bafo, bolita, sabe o que é pular uma sapata, entre outras tantas. Mas a grande maioria de suas brincadeiras são coisas modernas tipo jogar videogame, navegar na internet, uns bonecos estranhos (que ele diz que põem um em cada canto de uma mesa e o que derrubar o do outro fica com o boneco), não entendi nada do que ele me explicou, mas vou voltar a perguntar e aprender.

Depois dos lugares históricos da cidade fomos visitar o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, e enquanto esperávamos para a audiência fiquei falando para o Felipe quais eram as minhas brincadeiras de criança em Uruguaiana. Falei das pescas, das pandorgas, das bolitas, de nadar no rio Uruguai, entre outras. Mas, uma em especial, chamou a atenção do Felipe, o jogo de Cinco Marias. Logo que ouviu, o guri se interessou e eu também, pois me senti jogando a pedrinha para cima e pegando primeiro uma por vez, depois duas, depois três, depois quatro e finalmente as cinco pedras, pronto passei de fase. Agora era atirar novamente as pedras e depois jogar novamente a pedra para cima e passa pela caverna feita com os dedos da outra mão. Ia contando a história do jogo para o Felipe e ele parecia que também estava jogando. Que papo maravilhoso!!!

Fiquei de produzir umas trouxinhas para o Felipe, é tipo um travesseirinho e cheio de arroz dentro, mas vou cobrar do guri ser o primeiro a jogar Cinco Marias com ele. Após fomos à audiência com o prefeito e o Felipe me deixou cheio de saudade dos tempos de guri de Urugauiana. Êta tempo bom, qualquer dia vou ai para nadar no Uruguai, dar uma pescada, e, se possível, tomar um banho de chuva. Se aparecer alguém para um desafio também posso jogar umas Cinco Marias.

Coluna publicada no Jornal Tribuna
Uruguaiana - RS

domingo, 26 de abril de 2009

Divulgando o Gratidão


Para o Aurélio Confiança é definido como:
1. Segurança íntima de procedimento.
2. Crédito, fé: O mensageiro não merecia a confiança nele depositada.
3. Segurança e bom conceito que inspiram as pessoas de probidade, talento, discrição,
4. Quem se pode contar em qualquer situação:

Dar confiança:
Tratar (alguém) com familiaridade e/ou consentir em ser assim tratado.
Depositar confiança:
Crer na honradez ou discrição de. Ter em bom conceito, em alta estima.


Confiança

Por Marco Leite

Para mim, um alcoólico em recuperação, a definição é muito mais forte, é vencer o preconceito, é ter que provar que estou forte, é vir a acreditar que Alguém muito maior que eu está me protegendo (Segundo e Terceiro Passos). É provar para mim que mereço novamente uma chance de recomeçar.

Eu quebrei todas as regras, traí, fui irresponsável, deixei de cumprir com os meus compromissos mais simples, tudo por um copo de vodka e por acreditar que assim era mais fácil fugir dos problemas e das responsabilidades.

Acredito que para o resto dos meus dias vou viver tendo que provar que sou confiável, principalmente para meus familiares. Deixei muitas marcas e muitas mágoas nas pessoas que me rodeiam e eles têm o direito de desconfiar.

Cabe a mim aceitar isso com serenidade, pois são coisas que eu mesmo plantei. Hoje, já não sofro mais com esse tipo de coisa, estou há três anos abstêmio e as pessoas já soltaram um pouco as rédeas e não me vigiam como antes.

Às vezes minha esposa e filha me ligam para saber onde ando e se já estou chegando, e fico feliz com isso, me mostram que sempre vai haver um pé atrás e um medo de uma recaída.

Quando assumi os 12 Passos de AA como espinha dorsal de minha recuperação fui chamado para uma responsabilidade que nunca havia tido em minha vida de alcoólico ativo. Agora, em abstinência e buscando a sobriedade, vivo de 24 em 24 horas.

E isso é muito mais fácil, pois assim não preciso me preocupar se vão confiar em mim amanhã, pois a minha responsabilidade é Só Por Hoje, o amanhã a Deus pertence e sei que esse confia em mim.

Acho sinceramente que os dependentes de álcool e outras drogas lutam muito com essa “confiança”, pois alguns chegaram a um ponto que nem eles mesmos acreditam em si.

Confiar é praticar o Terceiro Passo em sua plenitude. Quando se entrega a vida e as vontades ao cuidado de Deus é muito mais fácil.

Eu confio que Deus está comigo e prossigo, sempre fazendo minha parte que é praticar os Passos, principalmente o Décimo Passo, uma análise honesta e todos os dias é fundamental para se readquirir confiança, não dos outros, mas em mim próprio.

Vivo assim a minha vida hoje, se falhei ontem vou buscar acertar no hoje. O futuro não sei, pois ele não me pertence, mas preciso fazer o correto agora e sempre para ter a confiança no amanhã.
(Artigo publicado no
Site do Bairros Buritis - Minas Gerais)



A luta diária de
um “borracho”

Por Marco Leite

No último final de semana, estive em Cruz Alta. Fui a um encontro de graduados de Comunidades Terapêuticas, organizado pelo Núcleo de Apoio ao Dependente Químico, isso mesmo, eu sou um alcoólatra em recuperação e fui fazer a minha manutenção. Sem isso e também procurando viver um ‘Só Por Hoje’, não consigo me manter abstêmio e buscar a tão sonhada sobriedade que, para mim, é muito mais do que ser moderado no comer ou beber.

Não me tornei um “borracho” em Uruguaiana, tomei sim meu primeiro porre aí, mas até então nem sabia o que era bebida. Fui me tornando um alcoólatra aos poucos, dos meus 30 anos de consumo da “mardita da cachaça”. Para me dar conta que precisava de ajuda tive que perder tudo, só me restou mesmo a família, minha mãe, meu pai, meu irmão, minhas irmãs, e é claro minha esposa e filha. Fui parar em uma comunidade que trata de dependentes químicos de álcool e drogas, onde passei 10 meses, procurando o autoconhecimento e uma espiritualidade há muito perdida. Sou católico, herdei isso dos ensinamentos de minha mãe. Fiz a primeira comunhão na Igreja do Carmo, depois de muita luta de minha progenitora, já que passei três anos indo e não indo às aulas de catequese. Fui terrível nessa fase. O padre, do qual não lembro o nome, já tinha desistido de nos dar a comunhão, digo nos porque o meu irmão Bira estava junto nesse processo. Mas ir à igreja em minha infância pouco adiantou e o afastamento das coisas espirituais foi se dando com o tempo de alcoolismo e uma vida desregrada. O tempo na Comunidade Terapêutica me levou a uma aproximação com Deus novamente, isso claro que meio forçado no início, mas muito prazeroso nos dias de hoje.

Fiz esse pequeno relato para que os leitores me conheçam um pouco mais e porque encontrei, em Cruz Alta, companheiros de Uruguaiana e Paso de Los Libres. Gente que, como eu, foi lá para salvar a própria pele da dependência de substâncias psicoativas e que procuraram prazeres imediatos nas drogas.

Quando saí de Uruguaiana, em 1978, a droga já circulava por aí, o lança perfume e Perventim eram os mais falados. Eu é claro muito novo não me interessava por essas coisas. Mas conversando com os companheiros daí de nossa cidade e de Paso de Los Libres, descobri que o crack já chegou a nossa cidade. É triste saber disso, pois guardo Uruguaiana como uma cidade dos sonhos. Falo isso com o coração encharcado de lágrimas, por saber que virei um adulto e tenho que enfrentar a realidade - que é pandemia das drogas. Isso está fora de controle mesmo.

Eu dou graças ao bom Deus por estar em recuperação, sem isso não estaria aqui escrevendo esse artigo para vocês. E falo também com felicidade de ver que os jovens da fronteira estão buscando recursos e ajuda, e procurando sair desse labirinto sem fim que nós mesmos nos enfiamos.

Espero participar mais e ajudar a quem precisa. Esse é 12º Passo de AA, transmitir a mensagem e praticar os princípios espirituais em todas as minhas atividades.

Eu acredito que se eu que estava à beira da morte agora estou na luta, todos podem!!!

Tenho um e-mail e participo de um grupo, chamado Gratidão. Mandamos um jornal eletrônico todos os dias com informações sobre a doença e como buscar ajuda. O e-mail é: grupogratidao@gmail.com e está à disposição de quem quiser receber essas informações.

Parabéns a esses jovens da fronteira que tiveram a coragem de mudar. Eu que passei por esse processo sei que é simples a recuperação, porém não é fácil, a luta tem que ser diária e evitar o primeiro gole, a primeira fumada, a primeira cheirada. Fazendo isso, morremos de novo e aí o martírio recomeça.

Falo isso para alertar, porque nos últimos três anos de minha vida tenho me dedicado a ajudar a quem precisa, e faço isso para salvar a mim mesmo e por gratidão a quem um dia também me estendeu a mão.

Fica o alerta para as famílias, as autoridades e a população de Uruguaiana - a droga está instalada e é preciso reagir para continuar a ter a cidade mais bela, que é sentinela do nosso país.
(Artigo publicado no
Jornal Tribuna - Uruguaiana - RS)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Bilhete


Por Marco Leite

Neste depoimento breve e simples quero explicar um pouco de minha ausência nestes últimos dias. Ocorre que estive muito atarefado com um trabalho longo e estafante, mas de grande satisfação pessoal.
O bilhete que escrevo para vocês é uma espécie de quinto e décimo passo, um inventário pessoal relâmpago e também um relato que faço para Deus e para todos os leitores do Gratidão, que neste momento estou elegendo como padrinhos para ouvirem o que tenho a dizer a Ele. Saí da Fazenda Renascer há quase dois anos, no dia 13 de maio de 2007.

É isso mesmo, era dia da libertação do escravos no Brasil. Foi o dia que realmente recebi minha ‘carta de alforria’ de adicto (escravo) e que dizia: “Nada e nem ninguém me fará usar drogas, se eu não quiser”!
Fiz disto um lema em minha vida e planejei minha volta à sociedade com muita calma. Não me deixei engolir pela ansiedade e, principalmente, pela pressa em recuperar tudo que havia perdido rapidamente. Tenho andado com calma e aos poucos e minha vida tem se ajeitado.

Tenho a satisfação pessoal de saber que estou no caminho certo. Tenho minha família de volta, minha filha volta a acreditar que tem um pai e um amigo, ganhei novos e verdadeiros amigos, tenho pessoas e grupos a quem recorrer quando enfrento problemas, gente que entende minha cabeça ainda confusa pelo longo período de adicção ativa.

E tenho que confessar que o que mais me faz feliz é ter de volta minha vida profissional. Esse último trabalho que peguei me deu a certeza que estou de volta, não pelo dinheiro que vou receber, até porque nem preço acertei com meu contratante. Mas pela dificuldade do trabalho e de saber que em momento algum tive que recorrer a substâncias para continuar, mesmo quando o cansaço era completamente dominante. Muito pelo contrário ligava para o pessoal envolvido no projeto e avisava que precisava para algumas horas e eles entendiam.


É bom saber de tudo isso, mas é bom sempre estar refletindo e agradecendo. Sem isso posso cometer o mesmo erro de antes que é o de “viajar no sucesso”. Tenho que saber que uma vida em recuperação passa por algumas proibições, uma auto vigia constante, principalmente na euforia, que para mim é o maior dos perigos. Eu sou deslumbrado e, se não me cuidar, isso pode me derrubar. Por isso peço que me critiquem, me dêem retornos construtivos. Elogios, também gosto é claro, quem não gosta, mas eles são um perigo para um adicto e eu sei disso.


Estou de volta no jornal Gratidão e procurando e lendo textos que divido com todos é uma maneira de me manter em pé. Essa obrigação diária com quem lê ou recebe e não lê, me faz sentir na Fazenda Renascer, onde também haviam os interessados e os desinteressados na caminhada de recuperação. Aqui na rua é a mesma coisa, recuperação é simples, mas não é fácil.
Como pode um adicto compreender que tem que controlar sua alegria? Mas é assim mesmo a felicidade não é momento, é continuidade e equilíbrio.

Eu procuro fazer isso e tem dado certo até hoje. O amanhã? Não sei. Estou vivendo só por esse instante como costuma dizer meu amigo Chemale.
Vejam que não citei vontades e falta de drogas. É que realmente não penso mais nisso, escolhi no dia 13 de maio viver sem isso e é gratificante saber que a felicidade não está nas fugas, mas no enfrentamento dos problemas com serenidade e gratidão.

Tenho a certeza que quando Deus se aproximou de mim e me tocou, não me deu garantia que eu não teria problemas, mas certamente me deu armas ou ferramentas para enfrentar.
E é assim que vivo fazendo o bem conforme os desígnios de Deus, feliz e grato por, Só Por Hoje, estar em plena felicidade por ter me libertado das correntes da adicção. Mas, preciso sempre lembrar que venço novamente só hoje, o amanhã não me pertence e o passado já passou. Por isso sou grato todos os amanheceres em que ganho um PRESENTE de Deus.

Ode a Uruguaiana


Por Marco Leite

Uruguaiana... Feliz tu nasceste...
À beira de um rio... Sorrindo ao luar

Nasci e me criei junto dos rios Quaraí e Uruguai. Feliz, nasci próximo à beira de dois rios, sorrindo ao nascer do sol e ao luar. Fico pensando que minha infância está infinitamente ligada aos rios que banham Uruguaiana.
Quase tudo em minha infância lembra o velho Uruguai, vejam só: aprendi a dar os primeiros passos à beira do Quaraí, logo depois me foi apresentado o rio de minha infância - o Uruguai. Foi na beira do rio que aprendi a ler, isso mesmo, levava os livros para poder ficar mais próximo das pescarias, das travessuras. Enfim, a costa do Uruguai é considerada por mim como um espaço de educação e também um divertimento de criança.

Uruguaiana... Cidade alegria...

Ouve a melodia... Deste meu cantar


Eu era feliz e não sabia. Uruguaiana é a bela lembrança dos tempos de um guri que estudou em diversas escolas e que tocava tarol na banda de todas elas. Felicidade também era poder cantar o hino na Semana da Pátria, durante os desfiles, era um divertimento e ensaiávamos o ano inteiro para esse momento.

É um canto modesto... Que é o manifesto...
Do meu coração... Ele quer adorar-te

Cantar fazia parte de minha infância. Isso era feito com alegria, sem vergonha de botar para fora o amor por uma cidade modesta, mas com orgulho por fazer parte dessa comunidade, de poder manifestar de coração o amor pelo seu município.


Pois tu fazes parte... Do nosso torrão....

No jardim de meu país... És também uma flor

Uruguaiana é uma cidade que, mesmo à distância, não deixou de fazer parte de minha vida. Tenho lembranças vivas dos jardins floridos, cultivados por nós mesmos, e hoje, se a gente quer uma flor, tem que comprar. Em Uruguaiana, nós colhíamos o que plantávamos.

O teu povo é feliz... Vivendo neste esplendor...Cidade Fronteira

Sou profundamente grato por ter vivido nesse esplendor, e que esplendor!!!
Só quem viveu aí pode lembrar do rio, do Carnaval, da Califórnia da Canção Nativa, dentre tantas coisas, como também as rixas com os correntinos sempre nos lembrando que éramos fronteira de um País e tinha orgulho disso.

És toda coberta... De um céu cor de anil..
Tens a
honra mais bela... De ser sentinela... Do nosso Brasil

É Uruguaiana do céu anil, quem tem a honra mais bela de fazer parte de tua comunidade sou eu!! Eu fui e sou parte dos sentinelas do nosso Brasil!!
Sou grato e estou sempre lembrando do meu passado esplendoroso nesta cidade maravilhosa, onde nasci, me criei e forjei meu caráter.

Muito obrigado, Uruguaiana, melhor cidade do mundo
.

terça-feira, 10 de março de 2009

Causos


O exôdo rural

por Marco Leite

Minha filha passou no Vestibular da Ulbra aqui em Canoas, escolheu três cursos: Artes Visuais, Produção Audiovisual e Física. Agora está em processo de escolha do curso e cheia de dúvidas. Não esquento muito a cabeça. A escolha deve ser dela, quero vê-la feliz e se não for nenhum desses cursos, a Maria Clara vai ter um leque de opções para escolher. O que não falta pela região é universidades.

Esse processo que minha filha está passando me fez lembrar de 1977, foi no final desse ano que minha família se mudou de Uruguaiana, viemos de mala, cuia, mobília e até um cachorro chamado Gueyle.

Mas por que saímos de Uruguaiana? Por duas razões. A primeira era que meu pai, Seu Vilmar, para poder se aposentar teria que ficar um tempo embarcado em navio, pois sendo marinheiro e cedido ao Corpo de Fuzileiros, precisava cumprir horas para poder ir para a reserva. Esse tipo de coisa só no Rio de Janeiro ou em outros centros é que tinha.

A outra e principal razão foi o acesso à universidade. Minha irmã mais velha, Marione Leite, uma das primeiras repórteres da TV Uruguaiana, veio para Canoas junto com minha comadre Eloá Lopes da Rosa para estudarem Jornalismo. Nossa família é uma escadinha, temos diferença de mais ou menos um ano de irmão para irmão, e só a última é que tem cinco anos de diferença. Pois esse processo de mudança se deu porque mesmo sendo uma cidade com grande qualidade de ensino, Uruguaiana, por estar em uma zona rural, só oferecia cursos que tivessem a ver com a cultura econômica da cidade, que era a agricultura e a criação de gado.

Todos os meus irmãos, sem exceção, chegaram em Canoas com um excelente preparo educacional. Não porque o ensino em Canoas fosse fraco, mas o que se sentiu na minha família é que o nível de Uruguaiana era superior. Passou muito tempo desde nosso êxodo para a região metropolitana e, durante esse período, encontrei vários amigos, colegas e conhecidos morando e estudando em Porto Alegre. Fico pensando como a falta de opção de ensino superior em nossa cidade fez com que as pessoas se afastassem e fossem conquistar a profissão de sua escolha longe da família e dos amigos. Creio que alguns até retornem para Uruguaiana, mas a grande maioria acaba ‘se achando’ e não volta, estabelecendo-se em grandes centros. Penso que, por tudo isto, a cidade é prejudicada, perde seus moradores, suas raízes, sua base cultural e a sua história.

Eu por exemplo tenho familiares por aí, mas há muito tempo não sei onde andam e se estão bem. Claro que o meu caso é meio especial, pois vim com pai, mãe e todos os irmãos para Canoas. Mas, há alguns meses estive aí no aniversário de minha comadre e não procurei ninguém de minha família. Uruguaiana cresceu muito e eu não saberia localizá-los nas poucas horas que permaneci na cidade. A única que realmente mantém contato com os parentes é minha mãe, que volta e meia ela fala sobre nossos tios e tias. Mas confesso que quando ela fala são nomes que não lembro e não me remetem aos meus tempos de guri de Uruguaiana.

Em tempo: Deu Ilha do Marduque no Carnaval de Uruguaiana!!!!!! Fiquei orgulhoso pelo bairro que meu pai ajudou a dar o nome de Ilha no Marduque, certamente teria saído na escola se estivesse por aí. Mas não pude deixar de me emocionar quando vi a velha Cova da Onça, que para mim foi a escola mais bonita de todas. Infelizmente, não basta ser a mais bonita, tem que ter um desfile tecnicamente perfeito e isso foi o que fez a Ilha do Marduque. Parabéns a todos de Uruguaiana pelo Melhor Carnaval do Rio Grande do Sul, quiçá do Brasil.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Causos

Minha família: minha mãe, eu e meus irmãos

O valor familiar


Pois é, terminou o Carnaval...

... e lendo o livro “Ciclos: de vida ou de morte, em qual deles sua família está?”, de Alexa Guerra, me botei a refletir sobre os valores familiares e o que eu perdi com minha saída de Uruguaiana. Em minha época de guri eu realmente tinha valores familiares e a coisa foi se perdendo, inclusive os exemplos deixados pelos meus avós maternos e pela mãe e o pai. Como decresci quando deixei de ser criança e virei um adulto...

Lembro, como se fosse hoje, de meu pai chegando do quartel, e de nós esperando pelo seu retorno. Lembro de minha mãe, como uma pessoa que se dedicava totalmente aos filhos e à família, e que ainda se dedica.

Em meu tempo de Uruguaiana era comum os pais serem recebidos com alegria pelos filhos, pais que passeavam conosco nos fins de semana e que iam em todas nossas atividades escolares. E como era legal ter a presença deles em qualquer dessas ocasiões. Nossos pais eram verdadeiros fãs e o aplauso e reconhecimento deles era a garantia de nossa felicidade. Por sermos muito moleques e travessos, nossos pais tinham que ser severos e duros para corrigir erros e nos disciplinar, ainda mais que meu pai era militar.

Recordo que esperávamos ansiosos para as ocasiões festivas como Natal, Dia das Mães e dos Pais e os fins de semana para todos estarem reunidos para comer a melhor das refeições – “a da mamãe”.

Era o Pai que me levava para pescar, jogar bola, bolita, dama, dominó, empinar pandorga e outras tantas diversões. E quando nos reuníamos com primos e irmãos para uma disputa de sapata, cinco marias, esconde-esconde e forte apache logo vinham as brigas, os brinquedos espalhados pela casa, a bronca da mãe, o choro, os risos, enfim uma fartura de vida.

Nossa casa era cheia de amor, de gente, contentamento, abraços, beijos e risos. Também tinha um jardim zoológico em nossa casa, ou seria um lar, com bichos variados: caturritas, papagaios, cachorros, galinhas, coelhos, tartarugas, gatos e até um graxain. Isso mesmo, uma raposa. E todos faziam parte, é claro, da grande família Machado Leite.

Tinha ainda um jardim botânico dentro do quintal, com plantas ornamentais e frutas variadas. Em nosso pomar tínhamos uva, pêssego, maracujá, goiaba, abacate, figo, laranja, limão, entre tantas outras.

Floricultura era o nosso quintal; fruteira, o nosso pátio. E até açougue, de vez em quando, tinha no terreiro lá de casa. E nas férias com toda a família unida, não importava se na roça, na beira do rio Uruguai ou na casa de algum parente, o importante era a reunião familiar.

Para nós, aí em Uruguaiana, o importante era estarmos juntos e isso fazia a vida valer à pena.

Mas, infelizmente, parece que não dei valor a isso e minha família vem se extinguindo. Sei que posso e devo reverter esse quadro, mas é preciso esforço e não só meu. Precisamos de uma auto-análise séria e rever os conceitos de família que a modernidade nos trouxe. Os valores hoje são outros, nos preocupamos tanto com quem está certo ou errado e nos esquecemos do que é certo e do que é errado.

Temos que dar um basta e parar com o ciclo de desunião que está se instalando dentro da sociedade e isso tem atingido profundamente os valores da família.

Até a próxima semana e fiquem com Deus.

“Feliz daquele que teme a Deus, o Senhor,
e vive de acordo com a sua vontade!”